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quarta-feira, 29 de junho de 2011

Nós, os imortais

Nós, que somos imortais, nós que estamos vivos e por isso nos presumimos imortais, nós que temos a imortalidade toda condensada no segundo que passa, no instante que se consome aqui e agora, nós avisamos toda a gente que se pode morrer por não usar cinto de segurança. Nós, donos supremos e absolutos da moralidade, da perfeição, da conduta irrepreensível, nós que nunca tivemos relações sexuais sem preservativo, nós que nunca pusemos um cigarro na boca, nós que não comemos enchidos nem pão com manteiga, nós que deixámos de comer carne de vaca e depois aves e depois pepinos e deixaremos de comer o que tivermos que deixar de comer, nós que não damos batatas fritas com ketchup aos nossos filhos, nós que sustemos a respiração quando nos passeamos num cidade poluída, nós que nunca passámos um risco contínuo nem um semáforo vermelho, nem excedemos jamais o limite de velocidade e nunca, nunca nos esquecemos de dar o pisca, nós que nunca tivemos um ato irrefletido, irresponsável, imponderado, incorreto, inconsciente, precipitado, nós que trabalhamos arduamente em cada segundo das nossas vidas para sermos eternos, nós que conseguimos fazer o tempo estancar, as doenças reverterem, a má sorte afastar-se. Nós, os grandes e legítimos juízes do comportamento dos outros, condenamos a estupidez do miúdo dos Morangos com Açúcar, que tinha o carro e o corpo que gostávamos de ter, porque, rais'parta!, não levava cinto de segurança. Se levasse, seria perfeito e imortal, como nós.

Os imortais in Mãe Preocupada

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

That explains everything

B_GonzalezTorres_Clocks
Untitled (Perfect Lovers), © Felix Gonzalez Torres (1991) / MoMA

These two identical, adjacent, battery-operated clocks were initially set to the same time, but, with time, they will inevitably fall out of sync.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Da mentira


© Sebastian Faena

Há pessoas que vivem tanto e tão bem a mentira, que esta acaba por ser a única verdade nas suas vidas. Ora acreditam que vivem ou viveram uma grande história de amor, pondo os mais diversos floreados para contar uma banalidade; ora dizem que são felizes, mas estão cheias de bocados de vida mal resolvidos a atormentar-lhes a alma; ora acreditam que sendo o que os outros esperam, vão, assim, conquistar a sua amizade e simpatia, etc, etc, etc. Viver assim dever ser extremamente extenuante. É óbvio que todos nós contámos mentiras para nos protegermos das mais diversas situações, e também acredito que quem as usa como prática normal e se convence delas, é unicamente como estratégia de sobrevivência e defesa. Em todo o caso, mais tarde ou mais cedo, em algum momento da vida, os resultados podem, de todo, não ser os mais saudáveis. A qualquer momento a máscara pode cair e a actuação ao invés dos aplausos de satisfação e concordância, recebe uma vaia de desaprovação ou simplesmente silêncio de pena, pela paupérrima comédia em que se tornam.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Relax, take it easy

Pictures

O meu desprezo por pessoas que dramatizam a vida no geral e uma situação em particular, acentua-se à medida que o tempo passa. Na verdade acho que nem é desprezo, é mesmo pena. Fazem-me acreditar que não sabem nada do que é viver a vida.