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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Eu visto, logo existo

Elle Fanning in Rodarte by Bill Owens for A Magazine elle_fanning5
Elle Fanning by Bill Owens
A semana de moda é uma excelente época para se observar em máximo volume o comportamento das pessoas em relação a roupa. Como sempre, tem a população divertida que se monta toda pra passear nos corredores da bienal. Mas o que mais observamos era uma multidão de meninas e meninos (tanto nos corredores, quanto fora deles) querendo parecer imagens que já cansamos de ver nos blogs de streetstyle. Mas e dentro da roupa? Quem está lá? O que parece é que na casca de fora está sendo passada uma mensagem que em nada tem a ver com o conteúdo. Como se fossem zumbis. São combinações, trejeitos já vistos, marcas, logos… Tudo posicionado para dar uma mensagem. A aparência é realmente ótima. Mas lá dentro, ao invés de um cérebro que manda comer MIOLOS! existe um que comanda: BOLSAS, PULSEIRAS, SAPATOS!. É a cultura do “eu visto, logo existo”. Quando o que você usa, é mais importante do que você, a roupa passa a ser apenas um veículo de propaganda de quem você quer que as pessoas pensem que você é, ao invés de ser uma extensão da sua personalidade. Mas pera! Querer parecer alguma coisa que você gostaria de ser, não é também uma parte da sua personalidade? Sim. Parte da personalidade de um grande outdoor de propaganda. Me compre! Ando cada dia pensando mais nestes assuntos. Mostramos aqui uma infinidade de tendências e produtos, mas gostaria de poder ter certeza que, ao invés de infectar mais pessoas com a febre virótica dos zumbis da moda, estamos dando opções para quem quer ter personalidade própria e escolher o que realmente lhe representa neste mar de consumo. E não. Ter coisas não nos faz pessoas melhores. E tentar disfarçar o vazio que há por dentro de uma pessoa com mil peças da moda, só evidencia ainda mais o buraco. Como eu disse para a Marina: “O que você usa fala muito de você, mas o que você usa não fala por você”. 
Julia Petit in Petiscos

Eu estava para escrever um post sobre esta matéria há já algum tempo, mas a Julia Petit tirou-me as palavras da boca. E acrescento mais, é também por isto que sou completamente contra falsificações. É óbvio que a roupa barata das lojas queridas da nossa praça é muito inspirada nas criações dos designers de alta costura. Quem está a par do que acontece internacionalmente, vê isso com muita facilidade. No entanto, há uma grande diferença entre uma mala Vuitton falsa e um vestido com etiquetas Zara inspirado na Prada. Esta onda de falsificações, que há muitos anos acontece com malas e carteiras das mais variadas marcas de luxo, está a chegar agora ao calçado. E o pior é que, enquanto quem percebe de moda verdadeiramente faz de tudo para ser original, dar um toque de personalidade e não usar coisas mais do que vistas, as miúdas deliram todas com imitações das botas do Jeffrey Campbell. As botas são giras dentro do género e tal, mas não tão giras assim, e ao preço que compram as falsificações existem coisas muito mais interessantes. Até porque não adianta nada tentar mostrar aos outros uma coisa que não é. Os pormenores nunca serão iguais. E como diz a Julia tão bem, faz parecer quem usa as estampas apenas tonto.

I’d rather live on my own than live with a face that looks at me with the wrong eyes ~ Jane Birkin

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Tantas vezes

anna karina
Fotograma: Anna Karina in Vivre sa Vie (1962)


E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Amor/Ódio

distress
Audrey Hepburn & George Peppard in Breakfast at Tiffany's (1961)
Uma relação íntima entre duas pessoas é um instrumento de tortura entre elas, quer sejam pessoas de sexo diferente ou do mesmo. Todo o ser humano tem dentro de si uma certa quantidade de ódio para consigo mesmo, e esse ódio, esse não conseguir aguentar-se a si mesmo, é algo que tem de ser transferido para outra pessoa, e a pessoa que se ama é aquela para quem melhor se pode tranferir.
in Dublinesca, Enrique Vila-Matas

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Breve explicação sobre o homem ideal

Ryan-Gosling-Drive-movie-image-2-600x399
Basicamente todos os homens deviam ser como o Ryan Gosling. Não muito bonito, mas ridiculamente atraente, com um belo rabo, com pinta, piada, charme, talento e um verdadeiro apaixonado pelas suas mulheres, tal e qual como nos filmes que interpreta.

E depois de escrever isto, numa breve pesquisa para ir buscar uma foto catita do mesmo, encontrei este post no Hello Giggles, que diz de forma pormenorizada e com piada tudo aquilo que eu penso em jeito de carta aberta. Tirem notas meninos, porque pelos vistos não sou só eu a idolatrar a criatura. Aqui fica então para a posteridade:

Hey Boy,
I think we need to talk.
You have to stop. Just stop. It’s getting to be too much. See, I’m just a girl who sits in a cubicle all day.  I have to live in a real world. Not the kind of “real world” with MTV cameras and token drama queens. I live in the kind of “real world” where I have to deal with men who can’t afford to buy me coffee and who can’t emotionally commit. The longer you continue to be so Ryan Gosling, the harder it’s going to be for me to want to live in that world.
For my own sanity and for the sanity of women like me everywhere, I made a list of ways in which you can stop being so Ryan Gosling.
1) Stop being so attractive.
Just look at you.
You’re like Derek Zoolander, dude. You know, you’re really, really, ridiculously good-looking. You’re one of the few men I can think of who can do anything to his hair and I still would find you attractive. Also, you’re not too pretty. You’re gorgeous, but you still look like a man. If you were alive in Ancient Greece, sculptors would use your form as a model for true masculine beauty. (And Aristotle would add “Being Ryan Gosling” to the list of virtues a man should have.) Why is this a problem? Because instead of getting my work done, I’ve been spending my entire day planning our wedding. I’ve looked into how much renting my dream venue, the Intrepid Sea, Air and Space Museum, would be. This is a problem for two reasons. One, I can’t afford it. Two, I’m supposed to be doing expense reports. I realize you can’t control how you look, but if you lived your life with a bag over your head, I’d never have to worry about being fired.
2) Stop adoring women so much.
Every time you are with a woman you have this way of looking at her as though she is the most important thing in the universe.
I think it’s because you might actually appreciate women. You only have nice things to say about ex-girlfriends Sandra Bullock and Rachel McAdams. You still reportedly hang out with your mom and sister. You also say THE BEST THINGS EVER about your female co-stars. When you were doing press for Crazy, Stupid, Love, you said to a reporter, “Show me someone that wouldn’t give it all up for Emma Stone, and I’ll show you a liar.” About Michelle Williams, you said, ”She’s like Montana… If you want to get somewhere, you gotta, you gotta drive there. You gotta take the time to get there.” When I first read that, I had no clue what it meant. After three weeks meditating on it during my morning subway commute, I figured it out. It means you are better than any man alive. You’re also probably better than any man who is currently dead (not because you’re still alive and they are not, but because even when they were alive they were not as good at being a man as you are).
3) Stop being so adorable with children.
So, you’re at a premiere for a movie. Are you holding a cigarette in your hand? No. You’re holding a child.
Did you hear that loud boom in the far off distance? Those were my ovaries exploding.  That’s it. They’re done. I will never be able to give birth to children of my own because I have seen what you look like when you hold a little girl in your arms. But why would I want to give birth to children of my own when I know they won’t be yours? Do you know how many days of my life I’ve spent crying into my cardigan sleeves because I have to live with the knowledge that I will never give birth to your children? Nine. Technically, I’ve spent fourteen days crying, but the other five happened in the summertime so I wasn’t wearing a cardigan.
4) Stop being a great actor.
You started your career as a Mouseketeer alongside Justin, Britney and Christina. However, instead of being in NSYNC, you chose to be in Half Nelson.
Dude, you’re like a crazy awesome character actor. You don’t take on film roles because of the fame you might get or the franchise potential. You do movies because you love exploring emotions and telling great stories. This means that even though I want to just walk away and not care about your career, I can’t. The movies you make will always be interesting. I saw Drive last weekend and I was blown away. I was impressed with how it was trying to marry B-movie action with art house cinematography. I was impressed with the soundtrack. I was impressed with how much I wanted climb your character’s body like a tree and wrap myself around you forever. That last part was less a product of your acting skills and more a result of you being too beautiful. Also, I have never before wanted to add to a dating website profile, “Must be willing to carry my groceries and stomp the heads in of people who are trying to kill me”.  But because of Drive, I might have to.
5) Stop being a real hero.
You are a really nice, stand up kind of guy. Why? WHY?
After I saw (and blogged about) the video of you breaking up a fight on the streets of New York, I found myself walking alone at night in dangerous neighborhoods. See, I was looking for a fight. I wanted desperately to get involved in an altercation to see if you would arrive out of nowhere to break up my fight. Because that is my fantasy. Well, that’s not my only fantasy. It is one of many, many fantasies that you have inspired. But basically, I can’t live my life hoping to get into trouble because you’ve led me to believe that you *might* rescue me. It’s dangerous because you won’t. I know this because I’m pretty sure you’re in LA right now shooting a movie. I know you’re probably in LA shooting a movie because you have officially caused me to lose my mind and become a cyber stalker.
In conclusion, just stop it. Just stop being so Ryan Gosling. I’m thankful you exist. Really, I am. But I need my sanity back. I have to be able to face the world with the knowledge that The Notebook is just a really good movie and not an outline for how all my relationships should be.
Ryan Gosling, you are a life ruiner.
Sincerely,
Me
p.s. NEVER CHANGE

domingo, 31 de julho de 2011

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Nós, os imortais

Nós, que somos imortais, nós que estamos vivos e por isso nos presumimos imortais, nós que temos a imortalidade toda condensada no segundo que passa, no instante que se consome aqui e agora, nós avisamos toda a gente que se pode morrer por não usar cinto de segurança. Nós, donos supremos e absolutos da moralidade, da perfeição, da conduta irrepreensível, nós que nunca tivemos relações sexuais sem preservativo, nós que nunca pusemos um cigarro na boca, nós que não comemos enchidos nem pão com manteiga, nós que deixámos de comer carne de vaca e depois aves e depois pepinos e deixaremos de comer o que tivermos que deixar de comer, nós que não damos batatas fritas com ketchup aos nossos filhos, nós que sustemos a respiração quando nos passeamos num cidade poluída, nós que nunca passámos um risco contínuo nem um semáforo vermelho, nem excedemos jamais o limite de velocidade e nunca, nunca nos esquecemos de dar o pisca, nós que nunca tivemos um ato irrefletido, irresponsável, imponderado, incorreto, inconsciente, precipitado, nós que trabalhamos arduamente em cada segundo das nossas vidas para sermos eternos, nós que conseguimos fazer o tempo estancar, as doenças reverterem, a má sorte afastar-se. Nós, os grandes e legítimos juízes do comportamento dos outros, condenamos a estupidez do miúdo dos Morangos com Açúcar, que tinha o carro e o corpo que gostávamos de ter, porque, rais'parta!, não levava cinto de segurança. Se levasse, seria perfeito e imortal, como nós.

Os imortais in Mãe Preocupada

sábado, 18 de junho de 2011

Banksy

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Eu costumo dizer ao meu namorado que os rapers e hip-hopers que ele ouve são uns revoltados, que vivem a vitimizar tudo e todos, em tudo aquilo que cantam. Não sou fã do género, porque me irritam realmente. Mas compreendo a cena de quererem mudar as coisas e quererem um mundo com direitos e deveres iguais para todos etc, etc. Isto para chegar à malta dos graffitis, que têm a mesma onda em muitas das duas manifestações. Mais precisamente ao Banksy. Dele gosto. Muito. É genial o que ele cria. Já estive a folhear o livro Wall and Piece com muito dos seus trabalhos, agora quero ver o documentário realizado pelo próprio e que até teve direito a uma nomeação ao Oscar no ano passado. As imagens falam por si...
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Old man: You paint the wall, you make it look beautiful.
Me: Thanks
Old man: We don't want it to be beautiful, we hate this wall, go home.

Conversa de Banksy com um senhor por pintar no muro israelita da Cisjordânia in Wall and Piece
Pictures
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Mais aqui.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Quando o amor acontece

happy
Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Pablo Neruda

É o poema que vem no convite de casamento do meu primo. O orgulho da família vai casar. E "a princesa", como me chamas, não podia estar mais entusiasmada. Muitas figas para que tenhas o juízo de seres feliz.

sábado, 26 de março de 2011

A esteticista sobre a queda do governo:

As mulheres é que deviam governar... olha para a Dilma no Brasil, a Hillary nos Estados Unidos e aquela da Alemanha... aquilo sim, todas elas estão a fazer coisas boas. E a prova está no dia-a-dia: os homens recebem o dinheiro e vão comprar cigarros, as mulheres recebem o dinheiro e vão comprar comidinha. São as mulheres que governam uma casa.

terça-feira, 8 de março de 2011

Dia Internacional da Mulher

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© Henri Cartier-Bresson
As mulheres — salvo em certos congressos que permanecem manifestações abstratas — não dizem "nós". Os homens dizem "as mulheres" e elas usam estas palavras para se designarem a si mesmas: mas não se põem autenticamente como Sujeito. Os proletários fizeram a revolução na Rússia, os negros no Haiti, os indo-chineses bateram-se na Indo-China: a acção das mulheres nunca passou de uma agitação simbólica; só ganharam o que os homens concordaram em conceder-lhes; nada tomaram, apenas receberam.

Simone de Beauvoir  in «Le Deuxiême Sexe - Les Faits et Les Mythes»
Palavras tão antigas como actuais. Neste dia que é nosso, vamos festejar o nosso valor numa sociedade machista, que a pulso tentámos e ainda tentamos conquistar.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Capitães da liberdade

Voz poderosa como nenhuma outra. Porque é uma voz que chama para lutar por todos, pelo destino de todos, sem excepção. Voz poderosa como nenhuma outra. Voz que atravessa a cidade e vem de todos os lados. Voz que traz com ela uma festa, que faz o inverno acabar lá fora e ser a primavera. A primavera da luta. Voz que chama Pedro Bala, que o leva para a luta. Voz que vem de todos os peitos esfomeados da cidade, de todos os peitos explorados da cidade. Voz que traz o bem maior do mundo, bem que é igual ao sol, mesmo maior que o sol: a liberdade.

Jorge Amado in Capitães da Areia

Um pouco por trauma nunca mais quis ler nada de Jorge Amado, desde que na infância li O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá. Odiei o livro. Felizmente, ultrapassei o preconceito e acabei ontem um dos livros mais bonitos que já tive a oportunidade de ler.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Dica para as meninas vaidosas

julia
Não tenho a certeza se já falei dela aqui. Julia Petit é brasileira e tem o meu blog preferido de moda e beleza. Acompanho-o há muito tempo, desde que me meti nestas andanças blogosferianas. É gira, simpática, tem muita piada e dá umas sugestões incríveis nos seus vídeos de maquilhagem. Principalmente em semanas de São Paulo Fashion Week, com os seus Manuais diários.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Li o conto há muito tempo e nunca esqueci*

photos by Andrew Stark
© Andrew Stark

Era uma tarde do fim de Novembro, já sem nenhum Outono.
A cidade erguia as suas paredes de pedras escuras. O céu estava alto, desolado, cor de frio. Os homens caminhavam empurrando-se uns aos outros nos passeios. Os carros passavam depressa.
Deviam ser quatro horas da tarde de um dia sem sol nem chuva.
Havia muita gente na rua naquele dia. Eu caminhava no passeio, depressa. A certa altura encontrei-me atrás de um homem muito pobremente vestido que levava ao colo uma criança loira, uma daquelas crianças cuja beleza quase não se pode descrever. É a beleza de uma madrugada de Verão, a beleza de uma rosa, a beleza do orvalho, unidas à incrível beleza de uma inocência humana.
Instintivamente o meu olhar ficou um momento preso na cara da criança. Mas o homem caminhava muito devagar e eu, levada pelo movimento da cidade, passei à sua frente. Mas ao passar voltei a cabeça para trás para ver mais uma vez a criança.
Foi então que vi o homem. Imediatamente parei. Era um homem extraordinariamente belo, que devia ter trinta anos e em cujo rosto estavam inscritos a miséria, o abandono, a solidão. O seu fato, que tendo perdido a cor tinha ficado verde, deixava adivinhar um corpo comido pela fome. O cabelo era castanho-claro, apartado ao meio, ligeiramente comprido. A barba por cortar há muitos dias crescia em ponta. Estreitamente esculpida pela pobreza, a cara mostrava o belo desenho dos ossos. Mas mais belos do que tudo eram os olhos, os olhos claros, luminosos de solidão e de doçura. No próprio instante em que eu o vi, o homem levantou a cabeça para o céu.
Como contar o seu gesto?
Era um céu alto, sem resposta, cor de frio. O homem levantou a cabeça no gesto de alguém que, tendo ultrapassado um limite, já nada tem para dar e se volta para fora procurando uma resposta: A sua cara escorria sofrimento. A sua expressão era simultaneamente resignação, espanto e pergunta. Caminhava lentamente, muito lentamente, do lado de dentro do passeio, rente ao muro. Caminhava muito direito, como se todo o corpo estivesse erguido na pergunta. Com a cabeça levantada, olhava o céu. Mas o céu eram planícies e planícies de silêncio.
Tudo isto se passou num momento e, por isso, eu, que me lembro nitidamente do fato do homem, da sua cara, do seu olhar e dos seus gestos, não consigo rever com clareza o que se passou dentro de mim. Foi como se tivesse ficado vazia olhando o homem.
A multidão não parava de passar. Era o centro do centro da cidade. O homem estava sozinho, sozinho. Rios de gente passavam sem o ver.
Só eu tinha parado, mas inutilmente. O homem não me olhava. Quis fazer alguma coisa, mas não sabia o quê. Era como se a sua solidão estivesse para além de todos os meus gestos, como se ela o envolvesse e o separasse de mim e fosse tarde de mais para qualquer palavra e já nada tivesse remédio. Era como se eu tivesse as mãos atadas. Assim às vezes nos sonhos queremos agir e não podemos.
O homem caminhava muito devagar. Eu estava parada no meio do passeio, contra o sentido da multidão.
Sentia a cidade empurrar-me e separar-me do homem. Ninguém o via caminhando lentamente, tão lentamente, com a cabeça erguida e com uma criança nos braços rente ao muro de pedra fria.
Agora eu penso no que podia ter feito. Era preciso ter decidido depressa. Mas eu tinha a alma e as mãos pesadas de indecisão. Não via bem. Só sabia hesitar e duvidar. Por isso estava ali parada, impotente, no meio do passeio. A cidade empurrava-me e um relógio bateu horas.
Lembrei-me de que tinha alguém à minha espera e que estava atrasada. As pessoas que não viam o homem começavam a ver-me a mim. Era impossível continuar parada.
Então, como o nadador que é apanhado numa corrente desiste de lutar e se deixa ir com a água, assim eu deixei de me opor ao movimento da cidade e me deixei levar pela onda de gente para longe do homem.
Mas enquanto seguia no passeio rodeada de ombros e cabeças, a imagem do homem continuava suspensa nos meus olhos. E nasceu em mim a sensação confusa de que nele havia alguma coisa ou alguém que eu reconhecia.
Rapidamente evoquei todos os lugares onde eu tinha vívido. Desenrolei para trás o filme do tempo. As imagens passaram oscilantes, um pouco trémulas e rápidas. Mas não encontrei nada. E tentei reunir e rever todas as memórias de quadros, de livros, de fotografias. Mas a imagem do homem continuava sozinha: a cabeça levantada que olhava o céu com uma expressão de infinita solidão, de abandono e de pergunta.
E do fundo da memória, trazidas pela imagem, muito devagar, uma por uma, inconfundíveis, apareceram as palavras:

- Pai, Pai, por que me abandonaste?

Então compreendi por que é que o homem que eu deixara para trás não era um estranho. A sua imagem era exactamente igual à outra imagem que se formara no meu espírito quando eu li:

- Pai, Pai, por que me abandonaste?

Era aquela a posição da cabeça, era aquele o olhar, era aquele o sofrimento, era aquele o abandono, aquela a solidão.
Para além da dureza e das traições dos homens, para além da agonia da carne, começa a prova do último suplício: o silêncio de Deus.
E os céus parecem desertos e vazios sobre as cidades escuras.
Voltei para trás. Subi contra a corrente o rio da multidão. Temi tê-lo perdido. Havia gente, gente, ombros, cabeças, ombros. Mas de repente vi-o.
Tinha parado, mas continuava a segurar a criança e a olhar o céu.
Corri, empurrando quase as pessoas. Estava já a dois passos dele. Mas nesse momento, exactamente, o homem caiu no chão. Da sua boca corria um rio de sangue e nos seus olhos havia ainda a mesma expressão de infinita paciência.
A criança caíra com ele e chorava no meio do passeio, escondendo a cara na saia do seu vestido manchado de sangue.
Então a multidão parou e formou um círculo à volta do homem. Ombros mais fortes do que os meus empurram-me para trás. Eu estava do lado de fora do círculo. Tentei atravessá-lo, mas não consegui. As pessoas apertadas umas contra as outras eram como um único corpo fechado. À minha frente estavam homens mais altos do que eu que me impediam de ver. Quis espreitar, pedi licença, tentei empurrar, mas ninguém me deixou passar. Ouvi lamentações, ordens, apitos. Depois veio uma ambulância. Quando o círculo se abriu, o homem e a criança tinham desaparecido.
Então a multidão dispersou-se e eu fiquei no meio do passeio, caminhando para a frente, levada pelo movimento da cidade.

Muitos anos passaram. O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado. Pelas ruas.

O Homem, Sophia de Mello Breyner Andresen in Contos Exemplares

*Hoje vi esta fotografia e tive de o reler.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Freja Beha Erichsen for Harry Winston Jewelry 2010 Campaign by Patrick Demarchelier
Freja Beha Erichsen by Patrick Demarchelier

"Ora ria-se lá outra vez!..."
A rapariga parou igualmente a meio do passeio e fitou-o com uma expressão interrogadora, sem perceber o pedido.
"O quê?"
"Gostava que se risse outra vez", repetiu ele. "Sabe que tem o sorriso mais bonito que alguma vez vi numa rapariga? Quando os seus lábios sorriem, os olhos também se alegram, a cara ri e todo o corpo a acompanha. Nunca vi coisa igual!"

José Rodrigues dos Santos in O Anjo Branco

Quando li isto, lembrei-me de um acontecimento parecido. A diferença é que foi uma mulher a dizer-me, mas isso é um pormenor sem importância.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

That explains everything

B_GonzalezTorres_Clocks
Untitled (Perfect Lovers), © Felix Gonzalez Torres (1991) / MoMA

These two identical, adjacent, battery-operated clocks were initially set to the same time, but, with time, they will inevitably fall out of sync.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Quote of the day

Linnea Pihl by Rickard Sund for Costume December 20103
Juergen Teller r Kate Mossuyt
Julia Oliv by Gustavo Marx for Project Alabama Spring 2011 Campaignalabama3
1. Linnea Pihl by Rickard Sund; 2. Kate Moss by Juergen Teller; 3. Julia Oliv by Gustavo Marx

The truth is, everyone is going to hurt you. You just got to find the ones worth suffering for.

Bob Marley