segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Não chores filhinha, dizia a minha mãe, Não chores, porque ainda temos um acidente. Lá vínhamos as duas de volta a casa, depois de mais um dia no cemitério da terra. Um dia que, dizem, é dos santos todos. Falávamos do meu irmão. Não imagino o sofrimento de se perder um filho. Um menino tão desejado que, depois de muitas outras tentativas falhadas, veio a este mundo por 48 horas e não resistiu. Pouquíssimas vezes falámos dele. A minha mãe nem sequer o viu realmente e tem muito mágoa por ninguém lhe ter tirado uma única fotografia. Falávamos desses dias e da esperança que acabou em revolta e tristeza sem fim. Contava-me que não foi ao funeral, porque ficou com uma profunda depressão depois do parto, mas que mais tarde lhe contaram como tinha sido. Nunca vi o meu pai a chorar. É uma figura bem-disposta e serena. Naquele dia, dizia a minha mãe, chorou desesperadamente. Todos choraram, até o padre que fez o funeral... Disseram-me que ele era muito bonito, continua ela. Este diálogo provocou em mim um misto de sentimentos. Tive muita pena e tristeza por ele não estar aqui, mas ao mesmo tempo muito amor e gratidão. Apesar de estar longe de algum dia o ter conhecido, senti e sinto amor por aquele pequeno anjinho que não teve tempo de aproveitar os mistérios da vida, e muita gratidão por ter estes pais maravilhosos que lutaram até ao fim, depois de tanto sofrimento, para eu nascer. Sabes que ele está lá em cima a cuidar de ti filha. Agora que já não corro o risco de ter um acidente de automóvel, choro, porque gostava muito de acreditar que ele está lá a cuidar de todos nós e que talvez um dia o possa ver e dizer-lhe que adoraria que tivesse feito parte da minha vida.
António, Rodrigo Leão & Ryuichi Sakamoto

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